Em 2020 vivemos um Dia Mundial da Voz com um contexto mundial diferente.

Em anos anteriores apelei à consciencialização das pessoas para comportamentos de abuso e mau uso vocal, para profissionais da voz ou outros, voz artística e não artística, sinais e sintomas a valorizar, que conduzissem a uma consulta de avaliação vocal por um médico otorrinolaringologista ou um terapeuta da fala.

Este ano apelo à consciencialização para outras componentes da Voz: a voz emocional e a voz da cidadania.

Devido à pandemia instalada pelo novo coronavírus, tenho colaborado na vigilância de casos nos Açores, algumas pessoas de Portugal continental e estrangeiros, residentes e de passagem. Os telefonemas diários são uma constante desde há 5 semanas, reiterando a voz como o veículo de comunicação primordial. Apesar de não estar a exercer as funções expectáveis como terapeuta da fala (à semelhança de muitos colegas de outras áreas da saúde), a verdade é que não deixo de o ser pelo facto de termos esta questão mundial entre mãos. Assim, devo reconhecer que, mais do que o conteúdo informativo que recolho através das questões que me estão incumbidas, tenho tido uma experiência de contactos vocais muito rica e diversificada. Não só a qualidade vocal de cada pessoa me suscita interesse, mas neste momento, principalmente, o estado emocional e a consciência cívica que se refletem em cada chamada telefónica.

Se por um lado há vozes de esperança, humildade, compreensão, resiliência, humanismo e até gratidão, por outro lado há vozes de depreciação, escárnio, incompreensão, irritação, agressividade e dissimulação. No fundo, todas elas transmitem uma mensagem subliminar de frustração, ora pela incapacidade para lutar com a pandemia, mas com aceitação de novos deveres enquanto cidadãos, ora pela incapacidade de lidar com as novas regras de vivência social, desresponsabilizando-se e reclamando direitos, enquanto cidadãos autoproclamados livres. Todas estas vozes transmitem mais do que aquilo que lhes pergunto, porque Voz é este todo de conteúdo pessoal, escancarado de cada vez que abrimos a boca (ou não) e fazemos vibrar as nossas pregas vocais, produzindo som. Mesmo por telefone, e sem necessidade de videochamada, conseguimos “ver” o estado de espírito do outro lado, um sorriso ou a falta dele, o nervosismo e a ansiedade, a paciência e a fé, a emoção contida no suspiro e no grunhido, e tudo isto além ilhas e além culturas, no decorrer dos dias.

A minha voz também tem sido diferente, nos últimos dias, abafada atrás de uma máscara, na expectativa de ser apenas uma voz com uma acústica abafada no meio de tantas outras, mas que grita responsabilidade cívica e emoções de cariz esperançoso e otimista quanto à resolução da situação em que nos encontramos.

 Sem dúvida que esta experiência tem enriquecido a minha perspetiva enquanto terapeuta da fala, profissional de saúde e ser humano. Enquanto amante da Voz, alimenta uma paixão de sempre, pelo potencial de exploração a que estou diariamente sujeita.

 

Voz, para mim, arte de aglomeração sonora que deturpa o significado das palavras, perante a essência malograda das emoções e a pureza irrefreável dos sentimentos.

SD

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